Crítico de PG destaca importância do Globo de Ouro para o cinema nacional
O cinema brasileiro viveu mais uma noite histórica no cenário internacional neste domingo, durante a cerimônia do Globo de Ouro. O filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, conquistou dois dos principais prêmios da noite: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, com Wagner Moura.
Para o crítico de cinema Robson Netto, criador do site Que Tar!, de Ponta Grossa, a conquista representa um ponto de virada na forma como o Brasil enxerga sua própria produção audiovisual.
A cerimônia do Globo de Ouro foi realizada no The Beverly Hilton, em Los Angeles, nos Estados Unidos. O longa não levou o prêmio de Melhor Filme de Drama, que ficou com Hamnet, mas consolidou um grande momento da produção artística nacional na premiação.


Reconhecimento que ultrapassa o troféu
Na avaliação de Robson Netto:
Toda vez que um filme brasileiro aparece e ganha uma premiação grande, Oscar, Globo de Ouro, Critics Choice, Cannes, Veneza, Berlim, seja qual for, não é só um troféu que a gente leva pra casa.
É a chance da gente finalmente enxergar o tamanho do nosso próprio potencial criativo.
Segundo ele, o Brasil cresceu consumindo produções estrangeiras, o que ajudou a criar a percepção de que o cinema internacional seria, naturalmente, superior. Consequentemente, ao mesmo tempo que a produção de fora era exaltada, o cinema brasileiro virou alvo fácil de piada, de desdém, de julgamento.
Robson afirma que essa é uma visão rasa, pois: “Quando um filme brasileiro é reconhecido lá fora, o mundo inteiro está dizendo o que a gente está demorando pra admitir: o Brasil sabe contar histórias.”
O crítico ainda destaca que:
Valorizar o cinema brasileiro não é só apoiar um filme.
É também apoiar a ideia de que a nossa cultura importa e que
nossas histórias também são universais.
Impacto na indústria e na cultura
Robson Netto destaca que prêmios internacionais também têm efeitos práticos. O reconhecimento gera investimento, fortalece produtoras, estimula novos projetos e amplia oportunidades para diretores, roteiristas, atores, técnicos, fotógrafos, montadores, músicos e produtores.
Mas ainda, mais do que movimentar a economia, a conquista representa identidade.
“O Agente Secreto” conquista Globo de Ouro
O prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, do Globo de Ouro, foi anunciado pelos atores Orlando Bloom e Minnie Driver, que saudaram o público brasileiro com um “Parabéns”, em português. Na disputa, o longa superou produções da Noruega, Espanha, Coreia do Sul, Tunísia e França.
Ao receber o prêmio, Kleber Mendonça Filho citou o país logo no início do discurso. “Eu quero dar um alô ao Brasil: alô, Brasil”, afirmou. O diretor agradeceu à equipe e ao elenco e destacou a parceria com Wagner Moura. “As melhores coisas acontecem quando você tem um grande ator e um grande amigo. Eu dedico esse filme aos jovens cineastas. Esse é um grande momento”, declara.
Wagner Moura como Melhor Ator
Com a estatueta de Melhor Ator em Filme de Drama, Wagner Moura tornou-se o primeiro brasileiro a vencer a categoria no Globo de Ouro. Em seu discurso, falou em português e exaltou a cultura nacional: “Viva a cultura brasileira”.
Na disputa, concorriam à categoria Joel Edgerton (Sonhos de Trem), Oscar Isaac (Frankenstein), Dwayne Johnson (Coração de Lutador: The Smashing Machine), Michael B. Jordan (Pecadores) e Jeremy Allen White (Springsteen: Salve-me do Desconhecido).
A vitória do filme O Agente Secreto retoma uma trajetória brasileira na premiação: Central do Brasil venceu a mesma categoria em 1999 e, no ano passado, Fernanda Torres foi premiada como Melhor Atriz em Filme de Drama.
Crítica do filme
Na crítica do filme, publicada por Robson Netto, ele descreve O Agente Secreto como “cinema brasileiro puro, com personalidade e voz”. Ele aponta que a construção visual do filme é um espetáculo a parte, com figurinos e cenografia que reforçam a atmosfera opressiva e, ao mesmo tempo, bonita de Recife nos anos 1970.
Outro ponto ressaltado é a forma como a direção aborda a vigilância cotidiana. “Não é só a polícia na esquina; é a janela do vizinho, o olho mágico, a portaria que pergunta sem perguntar, a carta que some do correio, o telefonema que cai. O Estado se infiltra pelos cantos, e quando aparece de farda, aparece com violência”. Para ele, até os menores papéis dentro da produção possuem uma função narrativa clara.
A crítica aponta ainda o tema da memória como eixo central do filme, ao retratar um país que frequentemente prefere apagar o passado em vez de aprender com ele.


