Acervo com 2.600 fósseis amplia pesquisas e consolida UEPG como referência em paleontologia

Um acervo com mais de 2.600 amostras de fósseis passou a integrar as coleções científicas da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). O material é resultado de um salvamento paleontológico realizado durante a construção de uma linha de transmissão de energia entre Ponta Grossa e Assis (SP) e amplia o volume de registros disponíveis para pesquisa científica na instituição.

Parte das amostras foi apresentada ao público em uma palestra de divulgação científica, realizada na última segunda-feira (26), no auditório do Museu de Ciências Naturais (MCN), em Ponta Grossa.

Durante o evento, o paleontólogo Henrique Zimmermann Tomassi, que coordenou o salvamento, detalhou o processo de escavação e a relevância dos achados para a compreensão do passado geológico da região. “A própria rocha mostra essas características. Daí vem a dedução que a região de Ponta Grossa, há 400 milhões de anos, 390 milhões de anos atrás, era fundo de mar. Baseado nos fósseis e na própria rocha”, afirma.

Fósseis marinhos e registros de água doce

O novo acervo reúne fósseis dos períodos Devoniano, Permiano e Carbonífero, com predominância de registros de vida marinha, especialmente invertebrados como algas, moluscos e vermes. Também foram identificados fósseis de peixes e, em áreas como a região de Ibaiti, exemplares associados a ambientes de água doce, especialmente algas.

“A região de Ponta Grossa é muito rica em fósseis, mas quase ninguém vê. Ou por falta de atenção, ou porque não sabem de fato como identificar os fósseis”, comenta Tomassi.

Catalogação e acesso à comunidade científica

As amostras agora passam por um processo de catalogação no Laboratório de Estratigrafia e Paleontologia da UEPG, que envolve identificação, numeração e acondicionamento adequado do material.

“O trabalho é laboratorial: ele terá que ser tarjado, numerado, tombado no livro e acondicionado no depósito. E posteriormente ficará à disposição da comunidade científica”, explica o coordenador do laboratório, professor Elvio Bosetti. Segundo ele, fósseis que se destacarem pela raridade ou preservação poderão ser destinados ao Museu de Ciências Naturais para exposição ao público e atividades educativas.

Atualmente, o acervo paleontológico da UEPG soma cerca de 35 mil amostras, sendo aproximadamente 24 mil já tombadas. Uma única amostra pode conter centenas de fósseis; em um dos registros, foram identificados 1,4 mil exemplares.

O acervo possibilita novas frentes de pesquisa

Além do valor histórico, o material amplia as possibilidades de pesquisa científica, incluindo a compreensão dos diferentes ecossistemas, mudanças ambientais e estudos com potencial para indicar presença de gás natural.

A doutoranda Iniwara Kurovski Pereira, do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UEPG, participou das escavações e destaca a relevância dos achados para seu trabalho acadêmico. “Então, como pesquisadora, o que mais me chamou a atenção é justamente o animal que eu estou estudando… A gente acredita que ele seja um molusco, mas tem alguns pesquisadores que também colocam ele como anelídeos”, relata.

Ela também aponta que devido ao perfil geológico da região dos Campos Gerais, é comum a descoberta de grandes volumes de fósseis durante obras de infraestrutura, como a construção de linhas de transmissão de energia ou rodovias.

Patrimônio científico e salvamento paleontológico

Para o diretor do MCN, professor Antônio Liccardo, a chegada do novo acervo contribui para a difusão do conhecimento científico produzido na universidade: “as pessoas às vezes encontram esses fósseis sem querer e não conseguem imaginar o significado daquelas conchinhas, daqueles registros marinhos. Mas eles comprovam que o ambiente era muito diferente há 400 milhões de anos, que isso aqui era um mar com animais que nadavam nesse mar”.

Liccardo ressalta que cada fóssil representa um patrimônio científico valioso, porque tem potencial de trazer uma nova informação sobre o passado do planeta. O salvamento paleontológico consiste na coleta sistemática de fósseis em áreas onde há risco de destruição ou dano irreversível desse patrimônio, como em obras de infraestrutura, e é fundamental para evitar a perda desses registros.

No Brasil, esse tipo de trabalho é exigido em processos de licenciamento ambiental quando há risco de impacto em áreas com potencial fossilífero.

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